domingo, 5 de outubro de 2014

O que a arte moderna holandesa tem a ensinar para a arte espírita



Vejam esse quadro. O que ele tem de especial? Não há nada de majestoso. Não se expressa uma deusa ou um santo. Nenhum grande evento histórico, nenhum classe heróica. O que nos foi tão importante para nele ser retratado? A dona de casa, o pão, o leite, a casa. 

Com a arte moderna holandesa temos uma ruptura ideológica, sem precedentes, com as outras tradições artísticas. Não há só beleza nos grandes eventos e pessoas. Mas, também, e principalmente no cotidiano das gentes.

Queria chamar atenção, em nossas peças espíritas, como retratamos os Espíritos. Muitas vezes dicotomizamos: Espíritos de luz contra Espíritos das trevas. Isso é uma herança da arte medieval. Poderíamos avançar um pouco e chegar pelo menos nessa arte holandesa. 

Ora, a grandeza do Espiritismo está em nos fazer ver seja no demônio seja no anjo indivíduos que já foram iguais a nós e que poderemos vir a ser como eles. Por que não mostrar o cotidiano demasiadamente humano dos espíritos ao nosso redor? Deveríamos investir mais nessa mediunidade cotidiana, nisso que Kardec chamou de "vida espírita", que revela um significado completamente inexplorado do adjetivo espírita. Quando vivemos uma "vida espírita", nessa concepção que Kardec usou, não é necessariamente uma vida de caridade que estamos vivendo, não só. É uma vida em que sentimos todo tempo a presença de espíritos ao redor. Sentimos também nossa condição de reencarnantes, de, todos nós, médiuns. 

Penso em muitas comédias que poderiam se originar disso, como a que deixei um exemplar junto à ABRARTE chamada "Denúncia". Penso também em romances entre encarnados e desencarnados, como a exitosa comédia espírita cearense "O morto e a Donzela" de Caroline Secundino, bem como sua "Se arrependimento matasse". 

Numa época em que o homem cotidiano parece ser a medida de todas as coisas, poderíamos investir mais na beleza que gravita em torno dele, do seu fazer que repercute entre os dois planos, do seu olhar confuso, pois sonhador. 

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Só mais um instante

(O quadro é de luto dentro do palco. Há um caixão, pessoas chorando, um aglomerado de amigos ao redor da viúva e de dois filhos. Alguns dos presentes estão parados, velando. Outros conversando amenidades que não se ouve. Do lado do caixão, o recém-morto fita a ainda esposa. Um amigo espiritual está ao seu lado tentando lhe convencer a partir)

Amigo: Por que você insiste em ficar?
Morto: (sem desespero ou angústia) Não insisto. Só peço mais um minuto. 
Amigo: Não vai lhe fazer bem. 
Morto: Mas, quero sentir. 
Amigo: O quê? A tristeza dos que ficam? 
Morto: O amor por quem parte. 
Amigo: Esse amor é desespero. 
Morto: Qual aquele que nunca foi?
Amigo: Os amores serenos existem e nos agradam.
Morto: Aqui na Terra, amigo, a serenidade dura um instante. Por favor, só mais um momento. 

(A viúva se aproxima do caixão e coloca o lenço ao rosto soluçando, tentando ao máximo ser discreta. Ela toca o rosto do cadáver. O morto sente ali do lado. Coloca a mão no peito de forma discreta e doída.)

Amigo: O que foi? Sente algo?
Morto: Que importa? Já morri. 
Amigo: Isso pode lhe custar mais algum tempo nas zonas de recuperação.
Morto: Parece que tempo é algo que já não me falta. 

(O filho chega e beija a cabeça do cadáver. O morto sente, fecha os olhos e sorri).

Morto: Ele não costumava me beijar. 
Amigo: Antes fosse quando você podia sentir. 
Morto: Mas, eu senti. 
Amigo: Estamos demorando demais aqui. Acho que você está piorando a tristeza deles. 
Morto: Não sente que é amor?
Amigo: É tristeza. 
Morto: Aqui na Terra, amigo, o amor tem suas vezes de tristeza. Por favor, só mais um pouco. Estou bem.
Amigo: Está chorando.
Morto: Porque estou indo embora, é normal. Deixe só mais algumas lágrimas cair. 

(A filha chega e deita sobre o peito do cadáver. O morto sente e encurva o peito como a lhe acolher).

Morto: Desde pequena ela faz isso. 
Amigo: (silêncio)
Morto: Quando vou poder voltar?
Amigo: Quem sabe? Só Deus. 
Morto: Então, Deus, me dê só mais um instante antes de partir. 


sábado, 26 de julho de 2014

E fez-se a luz... e a escuridão!

Ideia de peça segundo a concepção que tenho da criação do universo, em linhas mitológicas.

(Deus tem um corpo avantajado feito uma montanha, mas tem movimentos leves de bailarino. Neste dia está resfriado e feliz. Entra em palco dançando e, de repente, um grande espirro. Um estrondo se faz ouvir, as luzes apagam, gradativamente vão-se acendendo luzes pequeninas no pano de fundo: são as estrelas que nasceram de seu espirro. Uma atriz vestida de estrela despenca no palco e se levanta mostrando a barriga grávida. Lembrem sempre que Deus é um dançarino e que a cada novo espirro há estrondo e estrelas).

Deus: Minha Vida, você traz vida para mim!
Estrela: Meu Senhor, você me faz viva assim. Grávida de todos os seres que começarão a habitar nossa mansão. 
Deus: Tinha você em pensamento desde o início da eternidade. E o amor que de lá trago parece ter se feito todo em você. Veja o tamanho da barriga!
Estrela: São muitos, meu Senhor, mas fico aflita em saber que serão deles quando saírem de mim.
Deus: Tenho trabalhado leve em um berço duro para lhes acolher. Meus queridos espíritos... Espíritos... Está bom estes nomes para nossos filhos?
Estrela: Sem querer questionar Sua sabedoria, queria que cada um fosse chamado diferente.
Deus: E serão! Mas, são tantos e tão diferentes que cabe perfeitamente que os chamemos assim: espíritos. Nossos bebês! Vai que nasce um e se chama José. Será José amado como José. Vai que nasce outro e se chama Maria. Será Maria amada como Maria. Vai que nasce mais um e se chama João. Será João amado como João. 
Estrela: Venho já costurando o nome de muitos neste negro bordado que nos envolve, cada constelação. 
Deus: Venho fazendo berços de pedra para que os possamos acalentar. 
Estrela: Venho aquecendo meu corpo para os ninar. 
Deus: Venho esfriando bolotas de fogo para os ver correr por aí, escapulidos das pedras, pelo canudo das plantas, engolido por animais, revestidos por corpos humanos...
Estrela: O Senhor, meu esposo, já fez todo um programa de diversões para nossos pequenos. E eles apenas aqui estão. (aponta a barriga enorme). 
Deus: Não se preocupe que eu esteja pensando no futuro deles, minha Vida. É que o tempo na minha cabeça não passa. Ontem quando os criei já não mais existe, tanto quanto o futuro em que, depois de crescidos, viverão ao meu lado. Nem ontem, nem amanhã. Nada existe lá, porque tudo está aqui, no meu coração presente. Vivo a sua gravidez com a mesma intensidade de quando engravidou e de quando vai parir. 
Estrela: Difícil entender o tempo que se passa aí. 
Deus: Pára de compreender, fecha os olhos, acalma, deixa nossos filhos sair. 

(A Estrela dança uma valsa com Deus em que ele a conduz até o sono. Deus funga toda a luz da cena e sopra no ventre de Estrela. Uma grande luz se faz. Risos de crianças se espalham pelo ar. Estrela acorda já sem barriga e passa a admirar os risos, os sininhos e, por fim, a caixinha de música que toca ao fundo. Um berço de pedra está balançando no centro do palco. Uma música começar a tocar. De dentro do berço um homem de pedra sai engatinhando e, no ritmo da dança, ganha o espaço até estar bem ereto a bailar. Deus e Estrela entram na dança de vez em quando, apenas conudizindo-o  até ele conseguir dançar sozinho. Outros homens de pedra se misturam na dança até serem aos poucos substituídos por plantas, depois por animais e, enfim, numa cena, em que Deus e Estrela a assistem suspensos em tronos em nível superior. Vê-se surgir homem de carne, quase pelado, se encontrando no palco, reconhecendo o corpo, reconhecendo o enredor, e vendo, ainda, pedras, plantas e animais a gravitar em seu redor).

Deus: Filho, como estás?
Homem: Sinto-me estranho, meu Pai. Meu corpo é frágil, não tenho raízes, mal tenho agilidade nas pernas, meus pêlos caíram quase todos, mas eis que me encontro aqui a poder lhe falar tudo o que sinto. 
Estrela: Você está lindo, meu Filho!
Homem: Mas, estranho... Tudo que ao redor existe, para eles vejo uma função. Para mim, para que sirvo? O que devo fazer?
Deus: Depois de ter aprendido sobre como manter seu próprio corpo coeso, e ter entendido a importância das raízes; depois de ter conhecido o lar que criei para você, explorando o espaço, devo te entregar o mais precioso dos bens.
Homem: Qual seria, meu Pai?
Deus: A oportunidade de conhecer a si mesmo através de si. 
Homem: Eu me conheço desde sempre. Sou Seu filho e a Sua vontade cumprirei. 
Deus: É da minha vontade que meu filho não seja meu servo, mas venha a mim pela própria vontade. Até então estive lhe guiando com uma intensidade que encobria o seu mérito. A partir de hoje devo entrar em silêncio e me confundir com o espaço. 
Homem: Pai, já não lhe vejo! Onde estás?
Deus: Sempre ao seu lado. 
Estrela: Meu Senhor, permita-me iluminar o caminho desse menino.
Deus: Seja feita a sua vontade!
Homem: Mãe, não posso olhar para a senhora, há brilho demais!
Estrela: O que houve, meu Esposo!
Deus: É chegado o momento de ele construir as próprias leis, querida. Se você estiver muito ao lado dele, pode cegá-lo ou queimá-lo e nunca, assim, atingirá a lição derradeira. Permito que você o ilumine e o aqueça, mas de longe, muito longe.
Estrela: Entendo!
Homem: Não se afaste mãe, não se afaste! Por favor...
Estrela: Não se preocupe, meu bebê. Centuplicarei o meu brilho para que possas aproveitar o calor do meu colo e, ainda distante, sua vida se nutrirá de mim. Não posso ser onipresente como Seu pai. Mas, posso brilhar com tamanha intensidade, que é como se eu estivesse sempre ao lado. 
Deus: Porém, como ele irá conhecer tudo o que a ele pertence, se todo o tempo o seu brilho de mãe ofuscar o resto do universo? Preciso, querida, que todos os dias se esconda um pouco para que ele possa ver os outros irmãos que espalhei por aí, semeados em outros planetas iluminados por outras luzes que não a sua. 
Estrela: Que seja feita Sua vontade, Meu Senhor! Não se esqueça de mim à noite, filho. Trarei meus braços ao amanhacer para lhe acalmar. Permita, ao menos, que ele descanse quando eu estiver longe, querido. 
Deus: Permito! A isso chamarei de sono. E nesse momento, poderás ser livre da matéria para vir até nós ou vagar por aí caso decida não nos encontrar ou se vier a nos esquecer. 
Homem: Nunca irei me esquecer daquele que sei que é a fonte de toda a vida!
Deus: Você precisa crescer, filho! Nunca acontecerá isso se ficar todo tempo no nosso encalço. Preciso que conheça seus irmãos, amando-os como se eles fossem o bem mais precioso. 
Homem: O Senhor é o máximo bem! Minha mãe a mais sagrada companhia! 
Deus: É por esta relutância que a partir de hoje permito que possa duvidar da minha existência, tapar os ouvidos à minha voz, seguir a própria vontade, ainda que ela signifique a morte. Sempre farei com que renasça de novo até que Me encontre de fato.  

(A grande luz de Estrela se apaga e o homem passa a ouvir apenas os barulhos da noite).

Homem: (assustado) Pai? Mãe? Onde estão? Falem comigo? 

(Chega a Mulher tão assustada quanto o Homem).

Mulher: Quem é você?
Homem: Eu que pergunto: quem é você?
Mulher: Não sei mais. 
Homem:  Nem eu...

segunda-feira, 21 de julho de 2014

O Auto da Terra do Pé Rachado (I)



No começo da peça - que fala sobre a clássica peleja dos nordestinos em busca de água e a maldita concentração de terra nas mãos de um só, mas também da religiosidade que tudo invade na vida dos sertanejos, dando nova vida para os corações aflitos - no começo, canta um narrador em versos de martelo agalopado:


Eu vou lhes contar uma história bonita
Do jeito que vi num romance antigão
No meio de um povo aqui do sertão
Com Deus, alm’engenho, amor e desdita
Com tanta aventura que nem se acredita
Em terra sofrida de tanto rachar
Com pés machucados de tanto esperar
Do céu logo a chuva, do mar a esperança
Que o pouco que plantam não enche a pança
Cantando galope, querendo o mar

Se eu for lhes dizer onde é que ela fica
Não vou conseguir me fazer entender
Pois de onde eu estava só dava pra ver
O solo rachado e uns pés de oiticica
A seca danada que a tudo caustica
As plantas de espinho sem nada a secar
Um leito de rio deixado pra lá
O sol lá em cima luzia malvado
Descendo o chicote naquele cerrado
Queimando em galope bem longe do mar

Tudo era tão seco que os home’era forte
Com a testa enrugada qual couro curtido
E um olhar meio triste, mas muito garrido
De quem luta sempre, peitando a morte
Saindo das bandas das terras do norte
Deixando a casa pr’um dia voltar
Saindo daqui, com desdita sem-par
Pensando no verde da volta querida
Depois de umas gotas de chuva bendita
Caindo em galope, voltando do mar

No meio do povo havia Joaquim
Que desde criança sofria tormentos
Os vultos que via espantando os jumentos
Deixav’ele em claro por noites sem fim
Rezava com medo de ter farnizim
Pedia assustado pr’alguém lhe ajudar
E até que dormia de tanto esperar
Um sono tão calmo quanto ele podia
Seguindo folgado de noite e de dia
Cantando galope até se acal-mar

De longa odisséia era o amigo Teobaldo
Jogavam de bola, pisando no chão
Brincavam de pipa, rodavam pião
De bila, de roda, não davam rescaldo
A idade e a alegria lhes dando respaldo
O ar se animava e passava a soprar
As nuvens ficavam pesadas de amar
Moleques brincando gritavam pra tudo
Pra dor, pro calor e pro céu que era mudo
E o galope descia em água do mar

Mas como alegria de pobre é fugaz
Vivia nas bandas um tal coronel
Se achando o dono da terra e do céu
Dizia ser santo e arauto da paz
“Só quero o que é meu, não preciso de mais”
Piedoso, bondoso, gostava de dar
Querendo de volta, sem nem trabalhar,
A terra, o gado e três quartos da renda
Dos pobres vassalos dali da fazenda
Cantando galope bem longe do mar

O céu não demora a mandar uma criança
Mais pura e bendita dos seres humanos
Deixando bem claro que não há enganos
Que Deus se preocupa com nossa esperança!
Tereza é bondade que canta, que dança
É flor de salgueiro, bonita sem-par
Alegra o mundo sem nem se esforçar
Bailando tão leve no ar que desliza
Que um moço entoa assim que a divisa
Canção de galope de tanto a-mar

Aqui me despeço que eu devo sair
Pra grande atração se adentrar no espetáculo
Cortando paixões e o pão no cenáculo
Torturas de um amor que não deixa mentir
Se alegre bastante nas horas de rir
Mas pegue um lenço se acaso chorar
Que o riso no choro se pode mudar
Correndo esse drama no meio da cena
Que pra escrever, eu rezei uma novena
Cantando galope na beira do mar!


Martelo agalopado é uma poesia de uma metrificação toda própria e rebuscada. Tem repentista daqui que a faz de improviso,  coisa de louco ou de profeta. Não se admira que os gregos enxergavam nestes homens meros intermediários dos deuses - psicófonos. 

Há um intertexto escondido. A seqüência da poesia segue a lógica de Os Sertões de Euclides da Cunha. Apresenta a Terra, o Homem e dá espaço para a Luta. Intertextos são ótimos! Fazem com que nossa literatura pareça um bloco só, de mil faces. Dá densidade para as histórias e pano pra manga aos interpretadores de textos. 

A dica aqui é para não nos esquecermos da cultura local onde se passam as histórias que pretendemos contar. Sem contudo deixar muito particular. Se quisermos que a coisa se espalhe, é mister falar de universais conflitos humanos: a falta contra a fartura, a seca contra a opulência. Se enxergarmos essa dicotomia no espírito do homem, divisaremos sobre o que tratará, no fundo, o Auto da Terra do Pé Rachado

sábado, 5 de julho de 2014

As três missões do Dramaturgo

Todos os que escrevem histórias sobre o mundo, temos uma grande missão. Dizem que inventamos cenas, situações e conflitos, então seria sob uma ilusão que faríamos as pessoas viver e se apaziguar na catarse dos espetáculos. Digo, porém, que revelamos realidades, cujo melhor ângulo de visão se mostra ao se apresentar fora das pessoas. Misturada a vida com nosso corpo, os invisíveis seres passam por nós, não porque são invisíveis, mas porque somos eles.

O dramaturgo tem esse divino dom de enxergá-los, arrancá-los da escuridão, iluminá-los no palco, e deixar que nós os reconheçamos.

O dramaturgo tem esse divino dom de enxergar-nos, nos arrancar da escuridão, nos iluminar no palco, e deixar que nos reconheçamos.

O dramaturgo tem esse divino dom de enxergar-se, arrancar-se da escuridão, iluminar-se no palco, e deixar-se reconhecer.  

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Introdução à este blog

Isto nasce de uma potência minha: desde cedo passar para o papel o imaginário mundo que me povoa e de teorizar muito a respeito de tudo isso. Nasce também de uma impotência: não conseguir dar vazão a um décimo das ideias que me tomam. Acredito que (1) as ideias não são de todo nossas, (2) que temos um infinito pela frente para concretizá-las, (3) mas que precisamos deixá-las plantadas em algum lugar para que, mesmo que não sejamos nós a cultivá-las, pelo menos sejamos os que poderão ajudar a desenvolvê-las. Devemos deixá-las acessíveis ao bons corações que percorram nosso mesmo caminho.


Este blog, portanto, passa a existir para que (1) ou eu venha, na maturidade, a me lembrar das ideias que deixei por aí, em algum lugar de mim, (2) ou que quem quer seja venha a se enamorar de minhas ideias para fazê-las viver enxertadas nele, (3) ou ainda que eu, após passada esta vida, possa vir em outra tendo deixado fácil o acesso às lembranças desta aqui.


Pretendo deixar registrados os esquemas das peças que não escrevi, poesias para peças que não vingaram, bem como princípios de escrita de peças que se possa chamar de espírita, o que poderíamos chamar de Elementos de uma Dramaturgia Espírita. Faço questão de dizer que é "uma dramaturgia espírita" e não "a dramaturgia", já que deve haver outros tantos teóricos do assunto por aí. Vou defender meu viés. Salve-se quem puder!


A primeira dica que dou é que, não sei vocês, mas eu me reconstruo no que escrevo. Não sei escrever algo que não passe a fazer parte orgânica de mim, de tal forma que esta escrita tenha descendido diretamente de uma paixão ou de uma melancolia. Tenho muitas, portanto, muitos motes. Quem não as tem? Deveríamos ter mais peças viscerais por aí. Acredito que seríamos mais sinceros uns com os outros se assim o fosse. Há sempre o perigo de alguém se utilizar desses segredos criptografados (psicografados?) contra nós. Que seja! Assim a nossa biografia fica mais emocionante e pode vir a dar uma ótima peça ao cerrar nossas cortinas, neste rápido ato em que ora estamos. Nunca esqueça que sempre haverá um próximo para recolocar tudo nos eixos e engendrar um final feliz, sim, sempre um final feliz.


Fique completamente à vontade de pegar o que quiser daqui e tentar criar qualquer coisa. A maior parte das histórias que circulam em nossos ouvidos são versões. E, na dramaturgia, antes de isso ser um crime, é uma diversão. Quem será que fará aquela que ficará para a história como sendo a original? Uma competição! A orginal aqui nada tem a ver com a origem de tudo. Quem poderá saber onde tudo começou? Em Deus, ponto. Marcará, contudo, a originalidade entre estes homens ocidentais a que mais penetrar no coração humano, reticências. E assim, sem esquecer que viemos de Deus, busquemos o coração das gentes.


Eis, no nosso ofício de dramaturgo, as respostas possíveis às três fundamentais questões: De onde viemos? De Deus. Quem somos? Dramaturgos. Para onde vamos? Para o coração das gentes.

Dizem que quando a melhor de nossas peças espíritas estiver em nós como que sua tinta em nossas veias, ao final estaremos em paz.